NOVO ENCONTRO
De loucura e desatino,
de toques surpreendentes,
de volteios e olhares febris...
De pernas trançadas com braços,
de estalidos de lábios e línguas,
de ritmos experimentais...
Paladares e olfatos novos, veredas virgens.
Juntos na paixão, baião-de-dois bem temperado.
TEMPO ADVERSO
Hostilidade da vida,
fúria da natureza,
tempo atrelado à insegurança, desgraça...
Subversão e voragem,
ceifa de toda a gente,
tempo de projetos segados, brumaça...
Vive-se um calendário de destino inóspito.
Ai, a dor e a agonia desses tempos torvos!
SAUDADE TARDE
Eis que meu tempo passa,
eis que me faço tarde
para amores, amigos, quimeras...
Um pôr-do-sol em agonia, à espera,
querendo tingir de sangue o horizonte,
escurecer, fazer-me eterna noite...
Saudade embarga. Tremula febril.
Um corvo passa... Cai uma lágrima inteira.
MÃOS ESMOLEIRAS
Famélica e sedenta, olhos vermelhos,
mendigo as sobras do tempo, os farelos,
com um pires tosco na mão.
O mesmo tempo que produz frutos e arte
amarga o doce de compota e engendra um desastre...
Como entreter o tempo bom, amarrá-lo ao pé da mesa?
Vaidoso, pisa tudo e todos, não repara em ninguém.
Recolho, por hoje, o pires inútil e as mãos esmoleiras.
(October, 2008)
TEU ACALENTO
Ondas que vem e vão,
distâncias curtas e longas,
um mar de buliçosa paixão!
Tens meu amor lânguido e vassalo
no período madruguento, à chuva fina,
em que, leve, ressono e me calo.
Meus lábios entreabertos devaneiam tuas carícias.
Tua vigília respinga luz e sorriso no meu rosto.
ANGÚSTIA
Angustio-me se teus olhos não me seguem,
se não me vejo em teus versos,
se não dizes, dia a dia, que me amas...
Angústia que transborda, molesta saudade,
que traz no âmago a espera ancha e infinita,
que atordoa, debilita, mas não faz adormecer...
Debato-me aos pés do amor.
Angustio-me se me faltas!
SILÊNCIO INQUIETO
Tantos calares...Tempo difuso...
Suor da angústia! Saliva seca.
Na madrugada quedamos. Ao acaso.
Todavia, olhos vigiam o silêncio...
Coração e pensamento buscam pistas...
Luz longínqua, qual fieira de lamparinas...Talvez?
Algo de repente se arquiteta. Quer falar!
Alma de poeta sempre se inquieta, não serena.
JANGADAS E ESPERAS
Uma a uma as jangadas vão ao mar,
asas triangulares de lençóis abertos,
velas da liberdade e sustento.
Da praia, joelhos na areia, rosto ressequido,
uma mulher lança um lamento e aguarda,
as mãos sobre o peito aflito. Voltará?
(Deus o guie e guarde, meu homem.)
(Console meu olhar, me faça um aceno...)
(May, 2008)
SOBRAS DO TEMPO
Vão-se os amores de Helena, ficam as dores.
Vão-se os anéis de Saturno, ficam as luas.
Vão-se os brincos da Princesa, restam as orelhas.
Vão-se os gatos, ficam os ratos.
Vão-se os pés mas fica o coração.
Vão-se as épocas, sobram os ditados.
Há loucuras e mudanças em todas as idades.
O tempo guarda um certo perfume de cada situação.
DECISÃO URGENTE
Uma história a ser reescrita,
outras descobertas, novo amor...
decisões e adiamentos.
Urge abrir a porta, pôr o pé na estrada!
O tempo não espera ninguém
não tem passagem reservada.
Momento agônico da lâmina de bom corte...
Tudo ou nada!
UIVOS
Na noite alta os lobos uivam,
lá e dentro de mim...
estão nas sombras da lua.
Vivem no meu coração de carmim arranhado,
nos fantasmas e sonhos relegados...
e ao longe, no meu imaginário.
Uma coruja-buraqueira pia.
(Ex/Es)pio meus pecados.
(February, 2008)
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